terça-feira, 5 de setembro de 2017

Biquíni carioca: do corpo ao escopo

Minha trajetória na moda

Comecei a trabalhar com moda porque eu gostava de desenhar e precisava ganhar dinheiro para ajudar em casa. Aos 17 anos pintava detalhadamente bolsas em um trabalho super artesanal, eram pinturas feitas a mão. Aos 19 anos me juntei com um empreendedor de moda e começamos a fazer MMM (Mercado Mundo Mix - uma feira vanguarda de onde saíram nomes como Marcelo Sommer, Alexandre Herchcovitch, Chilli Beans e Cavalera). Nosso stand de luz negra e acessórios luminosos, pisca pisca e que brilhavam no escuro e na balada fizeram tanto sucesso que em pouco tempo saímos de uma lojinha de rua na Aclimação e fomos para um stand dentro de um shopping! 
Era a moda vanguarda, “contracultura”, de “resistência” que os cybers punks, cyber minas e ravers usavam dentro de um ambiente de marcas normatizadas, do modus operandi oposto ao gueto, uma gentrificação do alternativo - mas nós estávamos crescendo e logo abrimos outro stand no shopping Higienópolis e em seguida tínhamos que “desovar” estoque, escolhemos o popular shopping “D”. Uma vida de muita correria, entre criar coleção, escolher fornecedores, mix de produtos, fazer feiras pelo Brasil, participar de eventos e toda a parte chata e burocrática. 
Aos 21 anos decidi voltar pro Rio - 1: porque eu prefiro o Rio, 2: porque eu queria fazer faculdade e 3: porque o negócio cresceu rápido mas era sazonal e eu não queria continuar ali.

De lá para cá trabalhei em vários setores da moda: figurino de TV, fornecedora para multimarcas (designer de moda com coleção homônima), professora de moda e em projetos de inserção social.

A moda praia começou como um desafio: indicada para assumir um projeto com mulheres egressas do sistema penitenciário, para que tivessem uma chance de não recaírem (uso de drogas, prostituição, delitos), uma equipe foi montada e fui uma das designers. Ensinamos a desenvolver coleção de moda praia. 
O projeto foi lindo, rendeu muitos desfiles, reverberou na imprensa e durou uns 2 anos. Nele percebi uma falta absoluta de referencias tanto técnicas quanto conceituais sobre o tema da moda praia. Era difícil ensinar e criar. Foi então que saí de uma especialização em marketing e fui para um mestrado estudar a moda praia sob o ponto de vista do designer como conciliador das articulações entre o design de biquini e os corpos. Meu recorte era a inovação: busquei entender como o corpo e o design dialogam através dos tempos e como um influencia, desenha e redesenha o outro. 

Em um ambiente de inovação trabalhei  a moda praia no mestrado - os "corpos remodelados" que foi o termo que eu dei para a combinação de prática esportiva, nutrição esportiva e cirurgia plástica, de outro lado fibras, fios e materiais inovadores, tecnológicos, de alta performance- os têxteis “inteligentes”. 


Entrevistei vários designers: LENNY NIEMEYER, JACQUELINE DE BIASE (SALINAS), CIDINHO (BUMBUM), THOMAS AZULAY (BLUE MAN). Também entrevistei alguns cirurgiões plásticos, dentre eles o saudoso IVO PITANGUY que com sua gigantesca cultura deixou mais um legado para a área. 



“Cultura de praia” é um termo que abrange um conjunto de práticas que no Rio de Janeiro teve início no século XIX, inicialmente por conta dos seus efeitos terapêuticos. Ao longo dos tempos foi se desenvolvendo para além da prescrição médica e se tornando local de lazer e socialização na rotina carioca. 

Também participaram as mulheres do grupo dos corpos remodelados, fiz um grupo com cerca de 20 dentro dos critérios para esse tipo de corpo. 
                             
Corpos remodelados são aqueles que têm seus formatos e/ou volumes extremamente modificados através de combinações entre práticas esportivas, suplementação nutricional, medicina estética e/ou cosmética.


Atualmente no doutorado pesquiso o caso da moda praia como um benckmark que contraditoriamente não tem seu conhecimento organizado e sistematizado, parto da premissa que a falta de sistematização do conhecimento não estimula a inovação que por vez impacta na nossa indústria. Trabalho também muito focada na inovação de tecnologias emergentes, de escaneamento corporal, da impressora 3D, com base nos preceitos da indústria 4.0,  por exemplo.


Uso o blog como plataforma para indexar conteúdos como apoio para a pesquisa, além das outras saídas obvias que um blog fornece, neste momento estou montando um que ainda está indisponível mas em breve poderá ser uma fonte para quem deseja se aprofundar no tema. 

Imagem do blog criado para a pesquisa: para indexar os conteúdos por assunto, além de links para diversos sites de marcas, associações de moda, artigos acadêmicos e pesquisas na internet em geral.

Segue o link da minha pesquisa de mestrado:


O sumário da pesquisa é:



“Bem, de novo essa ideia de que as cirurgias plásticas no Brasil podem modelar o corpo para combinar com os estilos das roupas. Então, as partes expostas pelo biquíni são alvo da cirurgia. Isso não me surpreende. O Brasil pode estar à frente de outros países em modelar o corpo conforme a moda, mas isso é um fenômeno mundial”. (Valerie Steele, Phd. Diretora e curadora do Fashion Institute of Technology)




O corpo humano é mutável, produzido por variáveis históricas, sociais, tecnológicas e culturais. Sendo assim é possível “remodelar o corpo” de forma mais extrema por conta da inovação e em função de novos ideais promovidos pela cultura de consumo.

Números e especialistas no mundo:






Todo corpo contém inúmeros outros corpos virtuais que o indivíduo pode atualizar por meio da manipulação da sua aparência e de seus estados afetivos. (...) Roupas, cosméticos, atividades físicas formam uma constelação de produtos cobiçados destinados a ser o camarim onde o ator social cuida daquela parte como se fosse um cartão de visitas de carne e osso. (Le Breton, apud Stéphane Malysse, 2002, pg.79).


Sobre os “tipos de corpos” e os modelos de biquíni ideais para cada tipo de corpo

Atualmente, o ato de “desvestir” (tirar a roupa e exibir a roupa de banho, o biquíni), pode carregar muitos códigos morais internos que variam por região, classe social e questões culturais. Saber escolher o tamanho certo de um biquíni para cada ocasião, as padronagens, as modelagens que favorecem uma parte do corpo ou escondem outra, tudo isso é regido por normas sutis que a cultura de cada lugar apresenta.
Certas noções estéticas ligadas aos tipos físicos ao se consolidarem vão se popularizando e ao se popularizarem se tornam referências, senso comum. Esse é o caso das convenções construídas sobre as formas do corpo. Buscou-se exemplificar essas convenções - tão recorrente em livros de moda, revistas e programas de televisão. Pode-se dizer que elas ocorrem da seguinte forma: observa-se as relações das partes do corpo, por exemplo, se a mulher é mais larga no quadril, se além disso tem a cintura afinada, se a cintura não é muito acentuada,  se o busto é pequeno ou grande, se os glúteos tem ou não volume, se as pernas são finas ou grossas, longas ou curtas. A forma do corpo que é percebida é comparada com frutas ou formas geométricas e recebe tais nomes: pera, maçã, triângulo, quadrado e ampulheta. Essas analogias tornam-se convenções muito encontradas na mídia dirigida a produções de looks: composições harmônicas de roupas, sapatos e acessórios de acordo com algum estilo ou tendência de moda e também com o tipo de corpo de cada pessoa. (Fig. 11 e Fig 12)
Figura: imagem retirada da internet, “biquíni certo para cada tipo de corpo ajuda a destacar o que é bonito” – Mariana Pastore, Uol, São Paulo, acesso em 22/01/2014.

figura: mostra os tipos de corpos em nomes de fruta ou formas geométricas. Imagem retirada da internet, blog Princess Jujube, acesso em 19/12/2013.
Apesar da grande quantidade grande de blogs, sites e revistas especializadas (moda, saúde e beleza) que trazem referências sobre os tipos de biquíni para cada corpo, tais publicações nem sempre são levadas a sério pelas usuárias de biquíni. O exemplo disso encontra-se nas respostas dos questionários online e nas entrevistas gravadas e transcritas nesta pesquisa. No primeiro caso, perguntou-se às usuárias de biquíni se elas seguem as sugestões de uso divulgadas em revistas/ internet sobre o biquíni perfeito para cada tipo de corpo (Figura 13). Entre as respostas, 4 disseram que “sim” e 14 disseram “não”. Esse resultado contraria a expectativa a essa pauta de assunto, repetida exaustivamente a cada ano - em especial no verão, em diversos meios de comunicação, incluindo programas de televisão, não só nos canais abertos (em programas populares), mas também na televisão “fechada” em canais pagos.

Figura: mostra o “Biquíni ideal para cada tipo de corpo”: 1- busto grande, 2- magras, 3- quadril largo, 4- barriguinha saliente, 5- gordinha, 6- seios pequenos. A imagem foi retirada da internet do blog: http://anacristinaphefiee.blogspot.com.br/, acesso em 22/01/2014.

 Em relação à questão dos tipos de corpos, a conclusão que se chega é que existem maneiras variadas de se buscar um entendimento que facilite a comunicação sobre formas, biotipos, tipos. Essas classificações podem inclusive encontrar fundamentação em um vocabulário mais formal e cientifico - cuja ênfase se dá no estudo das formas em relação às doenças ou propensões ao desenvolvimento de doenças, como é o caso da síndrome metabólica e resistência insulínica, que quando avaliada clinicamente pode ser percebida pelo formato do corpo mais arredondado na parte central (abdômen, quadris). 
Pelo viés cientifico os tipos são divididos em três: endomorfos (mais gordura), mesomorfo (mais músculos) e ectomorfo (menos gordura). As pessoas seriam fruto da mistura dessas três genéticas com a predominância mais de uma ou de outra. Os termos referentes às formas geométricas ou nomes de frutas pertencem ao domínio popular, estando o último bem delimitado – dentro da cultura do Funk carioca. 
Ultimamente já existem projetos voltados para uma “costumização de tipos de corpos” – que visa alcançar maior fidelidade em relação aos contornos corporais naturais de cada indivíduo- algo que é bem coerente com a cultura brasileira, já que somos um país de miscigenação abrangente e diversificada. Destaca-se aqui o site de compras na internet Flaminga que tem como objetivo proporcionar uma experiência mais interativa entre o produto e a usuária, cuja segmentação de mercado foca tamanhos maiores, a partir do tamanho 44. A loja virtual é uma multimarca que reúne diversas empresas voltadas para esse público, portanto lá há bastante diversidade de estilos, inclusive para a moda-praia. Apesar de utilizarem as referências mais comuns de tipos de corpo, para se chegar a cada um deles a usuária também apresenta uma série de manequins com tamanhos de peito, quadris e cinturas diferentes. Após se identificar com cada estágio (e ir marcando os que são correspondentes aos seus corpos), a usuária chega então ao tipo final - que nada mais é que um determinado tipo entre a “classificação” de corpos: triângulo, triângulo invertido, pera, ampulheta, etc., conforme as Figuras 14,  15 e 16 do site Flaminga:







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